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A mulher que não parava de cuspir...

  Vocês precisam conhecer a Creusa, uma vizinha que tive no interior de Goiás. Desde o começo da gravidez sua cunhada, Geralda, começou a padecer um enjoo horrível. Então pegou uns modos muito feios, muito deseducados! O de ficar cuspindo a toda a hora! A cada meia dúzia de palavras ela precisava parar para cuspir! Tinha até um lenço ao alcance da mão para ir limpando a boca o tempo todo. A coisa começou a ficar complicada. O maridão, sujeito truculento, já estava ficando muito bravo com aquilo: – Você não fica com a boca seca de tanto cuspir? Não aguento ver você com este costume estúpido. Vou levar você ao médico para ele ver isso! Irrita demais! Ele era já estava muito nervoso e parecia que – ele era um tipo muito violento – iria tomar uma atitude agressiva. Creusa havia percebido a proximidade de uma crise conjugal em crescimento e havia dito à amiga que precisava parar com este hábito. Muito abatida, a moça dizia que já havia tentado várias vezes, mas não conseguia int...

O grande sonho de Grażyna!

Maria Geralda cruzou os dedos diante da boca e disse:  - É verdade, meninas, não estou mentindo! E repetiu o pronome com a maior ênfase: eu! Talvez suas amigas não acreditassem na sua palavra. E tinha razão. Todo mundo sabia do grande sonho de Grażyna: estudar piano em Varsóvia, a terra de Chopin e de seus antepassados. Agora, porém, vinha aquela notícia inesperada. Há muito tempo ela vinha articulando as coisas e torcendo para darem certo. Havia escrito para algumas escolas, consultado seus professores sobre como isso podia melhorar seu domínio do instrumento, visitado a embaixada do país em Brasília, enfim, por muitos anos ela acalentou este sonho carinhosamente. Toda gente de sua família e da vizinhança sabia disso. Mas, sabia algo mais. Tendo poucos recursos precisava encontrar respostas para algumas questões impossíveis de contornar. Como conseguir os recursos para a viagem, a estadia no estrangeiro, a hospedagem, as taxas e custos do curso pretendido? Sonhos costumam cu...

Primeira manhã de lua de mel

  Onde é que ele tinha ouvido aquele pássaro? Apurou o ouvido. Não era apenas um, mas muitos. Bem-te-vis! Sim, bem-te-vis! Cantavam, uns convocando os outros, e o coro que formavam enchia a manhã com uma sensação de felicidade, de alegria, com uma vontade de cantar também, uma destas sensações maravilhosas que a gente não consegue descrever. Algo assim como estar na terra e no céu ao mesmo tempo. Arnaldo se espreguiçou na cama em desalinho. Cecília dormia ainda. A madrugada deles tinha sido cheia de carinho e de amor. O corpo cansado exigia um sono restaurador naquela primeira manhã de lua de mel. Tinha muito tempo pela frente. Dava para ficar na cama, ali, quieto, sem qualquer outra preocupação, nem tomar café. Ele contemplou Cecília adormecida. Passou a mão por seus cabelos macios. Pareciam de criança. Ela não se mexeu. Com ternura ele se recostou sobre um cotovelo e olhou o rosto dela de alguma distância. Os bem-te-vis continuavam a cantar. E ele também. Por dentro! Pareci...

O sorriso triste do Zé Correia...

  Pode parecer coisa tola para vocês. Para mim, é muito importante. O que vou lhes contar não acontece todos os dias. Quem conheceu o Zé Correia como eu, sabe que existe pouca gente feito ele. E não é tanto por causa das ideias dele, não. Houve outros que pensaram da mesma maneira. É, mas era tudo pessoal de importância, doutores, professores, até santos. Zé Correia não era nada disso. E daí porque eu acho muito importante tudo isso que vou contar. Pra começar, preciso dizer o que o povo pensava dele. Alguns achavam que ele era meio maluco. Talvez fosse, não sei. Deus é quem sabe. Outros achavam que ele fazia aquilo para chamar a atenção, um jeito de fazer com que as pessoas olhassem para ele e lhe dessem valor. Mas estes estavam errados, posso garantir. Não posso dizer que ele fosse inteiramente certo da cabeça, mas posso jurar que, aquilo que ele falava, a maneira como agia diante de todo mundo, era exatamente a mesma coisa que ele falava e fazia quando estava sozinho. Digo iss...

Por que Tonico não voltou a Santa Rita?

Meteu a mão no bolso e tirou o papel, meio amarrotado já, de tanto ser trocado de lugar, dobrado nesta e noutra forma, o pé direito descansando sobre a velha mala de fibra. Não havia dúvida. A rua era aquela mesma, Rua Vespasiano, bairro da Lapa, São Paulo. Mas, e o número? No lugar em que devia logicamente haver uma casa e necessariamente uma numeração, só um terreno cercado de tabiques de madeira. - A senhora sabe me dizer se naquele lugar onde vão construir um prédio, aqui ao lado, morava um senhor de nome Nicolau? - Olha, moço, aí morava a família do Seu Laláu. Eu nunca soube o nome dele, mas talvez fosse esse. Casado com D. Dininha. O nome dela eu sei, era Leopoldina, mas todo mundo conhecia ela por Dininha. - São eles mesmos. São meus tios. Eu sou de Minas, sabe, cheguei hoje do interior. Vim passar uns dias com eles, até mandei um telegrama. Cheguei aqui e não existe a casa deles. - É, eles se mudaram faz dois ou três meses. Disseram que depois iam me mandar o endereço, ...